Abnegação é o terceiro livro de Elesbão Ribeiro. Como em seus outros dois livros anteriores, Estação Piedade e Namorada Anarquista, perpassam os ecos de um mundo em ruínas ao qual o poeta busca dar ordem. Se em Estação e em Namorada verifica-se a presença de uma dicção coloquial, na linguagem mesclada de um português que se dá entre o castiço de Portugal e a inovação do brasileiro; em Abnegação, a língua ganha outros matizes. A língua é o lugar em que as tradições se mantêm e ao mesmo tempo se renovam, é o local em que os sentidos se inovam e se constituem; espaço privilegiado, quando se dá na percepção do poético, a língua é capaz de causar tanto a aproximação com o sublime quanto penetrar no cotidiano mais terra-a-terra da vida comum.
Tag: Amor maduro
-
Canto e gozo
De um poeta, além do estro, a vida exige coragem. Fazer poesia, não é só habilidade inerente ao manejo da palavra, mas também disposição para enfrentar a existência com suas pulsões e seus limites. Por isso poeta bom nunca é poeta morto. Alguns preferem manter inéditos certos enfrentamentos; um deles, o da poesia erótica. Lembremos um famoso livro de Drummond, O amor natural, que só postumamente veio a público. O poeta maior de nosso modernismo, resguardou-se mineiramente, deixou na gaveta os poemas de um amor maduro sem saber ao certo, coitado, se foi Deus ou o Diabo que lho deu.Na TextoTerritório, orgulhamo-nos de manter no catálogo poetas vivos, sempre vivos, que nada deixam a dever aos maiores dessa tal tradição poética. Um deles, é Carlos Augusto Corrêa. O poeta, que desde os anos 70, dedica-se corajosamente ao seu ofício, brinda-nos com esse Canto e gozo, uma coleção de poemas eróticos que deverão em breve comparecer nas melhores antologias sobre o tema. Carlos demonstra que conhece, e bem, essa tradição que se monta e se desmonta, de Safo, Ovídio, Aretino ou Goethe a Bandeira, Oswald ou Vinícius.A vida que se esvai com o tempo é o que mais se quer gozar. O poeta Carlos Augusto Corrêa sabe disso, canta o corpo que se deixa decantar pelo tempo, e lança-nos no erotismo de versos que se filtram pela memória, pelo voyeurismo, pela própria luta contra a morte pela impotência e celebra a sobrevivência da língua. Com toda a ambiguidade que esse termo pode ter no contexto, este é um dos temas mais pungentes de Canto e gozo, um amor desejante e mais do que maduro, aos 70, que se reinventa em diferentes recursos e tecnologias contemporâneas, como o Viagra, os vídeos endemoninhados, a dedeira, o plug. Este livro é a vitória do gesto simples dos imortais e com ele o leitor descobrirá o quanto a poesia faz gozar e viver.
